Pai Nosso

de

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A aguardada estreia de Clara Ferreira Alves no romance.  Um livro pungente sobre o terrorismo islâmico. 


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ISBN: 9789897242700 Páginas: 476 Dimensões: 23.50 x 15.50 x 2.54 cm Peso: 475 Categoria: Temática:

Excertos

«Deus fica longe dali. Deus está no céu que é um sossego. Há-de ser ele a receber os cadáveres dos mártires, a reconstituir-lhes a carne despedaçada como quem reconstitui um quebra-cabeças de milhares de partículas elementares. Pele, unhas, dentes, cabelos, pelos, ossos, músculos, cartilagens, tendões, vísceras, órgãos vitais. Massa encefálica. Massa putrefacta. Micróbios. Somos isto e mais sangue e água. Tomai e bebei. Este é o meu corpo e este é o meu sangue. Os que chegam ao paraíso estão isentos de urina e fezes, acabou a humana defecação e a matéria molecular reorganiza-se na natureza. A facilidade com que estilhaçamos como cristal. Não é preciso inventar a fissura do átomo, a explosão nuclear. Matar barato é a coisa mais simples do mundo. Explodimos numa pizzaria. Numa festa de casamento. Num mercado. No metro. No comboio. No autocarro. Qualquer lugar é bom.»

«O engenheiro. Os lugares fazem as pessoas. Na América, aquele rapaz dotado seria um cidadão acima de toda a suspeita. Casado, com família, emprego, número da Segurança Social. Uma casa com uma garagem ou uma cave onde as ferramentas seriam utilizadas para consertar o cano e a caldeira. A gasolina seria para fazer andar o carro. A acetona seria para tirar o verniz das unhas da mulher. A água oxigenada seria para aloirar o cabelo da filha. Pregos, anilhas e parafusos seriam componentes de uma máquina em vez de componentes de uma bomba. Noutro lugar, os engenheiros seriam trabalhadores entretidos a consertar eletrodomésticos nos dias de folga.»

«Os terroristas têm um fraquinho por mercados de rua porque prometem um número de vítimas razoável. Os sunitas matam os xiitas e os xiitas matam os sunitas. Os curdos matariam uns e outros se pudessem, para se livrarem deles de vez. Os carniceiros têm agenda própria. Há uns anos usava-se muito o pós-modernismo. O Daesh, o ISIS, é uma criação pós-moderna. Um compósito. Um palimpsesto. Incorpora todo o ódio, toda a maldade e toda a irracionalidade desta região maldita. Jeová, Yahweh, Javé, Senhor Deus, Deus Pai Todo Poderoso, Alá, Allah, Adonai, El, Elohim. Mais o bando de profetas. Um Deus com mais de noventa e nove nomes. De todos os países onde trabalhei, o Iraque é o mais viciado, o mais violado, o mais doente, um serial killer serially killed. Dizem que aqui nasceu a nossa civilização.»

«Quando vou a Mumbai costumo ficar no Taj Mahal. Podia ter estado nos corredores à hora em que os terroristas paquistaneses entraram pela porta de Best Marg vindos do mar. Quando ia ao Paquistão ficava numa das suites fronteiras do Marriott de Islamabad, as que foram destruídas por um camião com explosivos. Não vale a pena fugir dos terroristas. Estão em toda a parte como os pombos das cidades. Não dê de comer aos pombos.»